‘Criei um palco para mim’, diz cantor do Black Pumas sobre tocar nas ruas | O Som e a Fúria

 ‘Criei um palco para mim’, diz cantor do Black Pumas sobre tocar nas ruas | O Som e a Fúria

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 8 mar 2022, 10h09 – Publicado em 8 mar 2022, 10h08

Dono de uma curiosa mescla de música negra da Motown com ritmos latinos, entre eles o Brasil, o duo americano Black Pumas logo chamou a atenção da crítica, conquistando uma indicação ao Grammy na categoria de revelação, em 2020. A dupla formada por Eric Burton, um ex-músico de rua da Califórnia, e Adrian Quesada, ex-guitarrista do Grupo Fantasma, uma banda latina de Texas, logo se transformou em uma grande promessa do rock atual. A rápida ascensão se comprova no Brasil. Em 2020, o duo havia agendado um show no Cine Joia, um espaço para 1.500 pessoas — cancelado por causa da pandemia. Agora, eles finalmente se apresentarão no país, só que para um público de aproximadamente 100.000 pessoas, em 27 de março, no festival Lollapalooza.

Eric Burton conversou por videoconferência com a reportagem de VEJA e falou sobre o início da carreira, como músico de rua, suas inspirações musicais e também a expectativa de tocar em um grande festival no Brasil. Leia a seguir os principais trechos.

Você começou tocando nas ruas da Califórnia. Como essa experiência o ajudou na carreira musical? Uma das principais coisas que aprendi foi a me conectar com o público. Isso vale também, obviamente, se você tocar para grandes plateias. Mas, nas ruas, você precisa buscar esse envolvimento com o público. Em inglês, chamamos o ato de tocar nas ruas de “busking“, que é uma palavra que veio do espanhol “buscar”. Quando você começa como um artista de rua, você desenvolve também uma casca-grossa porque não há palco. Você tem que criar um palco para si mesmo. É preciso criar o hype e o buzz para convencer os pedestres a investirem tempo para te assistirem. Uma vez que você passa a tocar em grandes palcos, você não precisa mais disso porque já sabe que será ouvido e aplaudido. Para mim, portanto, o ponto é sempre me lembrar do passado, quando eu estava nas ruas e precisava criar um palco para mim. Não posso perder essa humildade.

O Black Pumas foi indicado ao Grammy um ano após a formação. Como lidou com essa rápida ascensão à fama? Foi um processo. Comecei com o busking. Depois, já com o Black Pumas, fomos tocar em clubes menores. Recentemente, abrimos para os Rolling Stones em um enorme estádio em Mineápolis, aqui nos Estados Unidos. Desde o início, eu acreditei que poderia ir até o fim. Quando eu comecei a fazer música com Adrian Quesada, sempre tive a sensação de que poderíamos fazer algo incrível, eu poderia chegar aos confins do mundo. Estou agradavelmente surpreso que isso tenha realmente acontecido.

A conexão musical que você tem com Adrian Quesada é muito grande, mas a experiência musical é bem diferente. Você veio do gospel e ele da música latina. Há também mais de dez anos de diferença de idade entre vocês. Como explica essa química? Embora a minha base seja o gospel – tipo: ir à igreja e cantar no coral – eu também cursei teatro no ensino médio e fui encorajado pelos meus pais a tocar música. O Adrian veio de Laredo, uma cidade fronteiriça com o México, aqui no Texas, onde a música é muito predominante. Então, ele fundou a sua própria igreja, baseada no rock and roll. Quando finalmente nos reunimos no estúdio, todas essas habilidades e experiências foram bastante compatíveis para criarmos algo junto. Não sei explicar a conexão, mas funcionou.

Adrian Quesada era do Grupo Fantasma, uma banda texana de músicas latinas que tocava até samba. O que você conhece de música brasileira? Em primeiro lugar, uma das coisas que eu mais respeito da música que vem da América do Sul é que ela é variada e não reflete apenas um credo, cor ou religião e, sim, a variedade de cultura e pessoas que a forma. De alguma maneira, vocês são capazes de utilizar todas essas influências para fazer um grande som. Eu realmente gosto como a música da América do Sul, especialmente do Brasil, tem um jeito de unificar essa energia. Comecei a prestar atenção na música brasileira quando eu era mais jovem, após os jogos de futebol da seleção brasileira – com o Ronaldinho brincando e mostrando as influências musicais dele. Espero aprender ainda mais.

Há alguma música do Black Pumas que agora, depois da pandemia, soe ainda melhor para você? Sim. As músicas mudam suas vibrações. Ouvir no rádio, no aparelho de som ou ao vivo são experiências diferentes. Se você ouvir hoje nossas músicas ao vivo, elas vão soar bem diferente do álbum e um dos motivos é que temos novos músicos na banda que não estavam na época da gravação. Além disso, nós evoluímos. Dito isso, eu poderia destacar a música OCT 33, em que mudamos a maneira como tocamos o solo de guitarra, cortamos o final dela e incluímos uma nova backing vocal. O show está muito mais rock and roll do que o álbum.

Black Pumas sempre toca covers de Otis Redding. O que o músico significa para a banda? A música de Otis Redding é extremamente importante para o Black Pumas por ajudar a encontrar a minha forma de cantar na banda. Antes de conhecer Adrian Quesada, eu tocava mais folk music, como Neil Young e Bob Dylan. Ao ser apresentado a Adrian, eu me lembrei o quanto fui inspirado por Otis Redding em primeiro lugar que, ao lado de Marvin Gaye e Al Green, formam o tripé do nosso primeiro álbum.

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